Autor:
Raimundo Silva
Crônica:
Fé e Vida
RAIMUNDO S.
CAVALCANTE — advogado — OAB/RJ
1051/A —
OAB/SP 7378 — CPF 007.468.788-34
Av. Rio Branco, 120/Sala 416 —
Centro — Rio de Janeiro, RJ — CEP
20040-001
Telefone (021) 507 - 4991 — Fax (021)
507 - 5108 — E-mail
raisilca@aasp.org.br
_______________________________________________________________________________________________________________
DIREITOS AUTORAIS: Este
trabalho — com 2 folhas de linhas numeradas — foi escrito por RAIMUNDO SILVA
CAVALCANTE, a quem pertencem os respectivos direitos autorais, nos termos
da Convenção de Berna, de 26.06.48, aprovada pelo Decreto Legislativo Nº. 59,
de 19.11.51; do art. 5º, inciso XXVII, da Constituição Federal de 1988; e da
Lei 9.610, de 19.02.98 e legislação mantida pela mesma. É permitida a sua
reprodução, parcial ou total, desde que mencione o nome do autor (Código Penal,
art. 184). Rio de Janeiro, 14 de março, 1999. Raimundo Silva Cavalcante.
_______________________________________________________________________________________________________________
fé
e vida
O apóstolo João é o único evangelista que narra o
famoso episódio.
Lucas faz referência ao mesmo (24, 36-40), mas sem os
detalhes que constam em João.
Ambos escreveram em Grego. Lucas, médico ilustre, de
educação grega, em línguagem apurada; enquanto João, simples pescador, gravou
em Grego vulgar a sua narrativa.
O Evangelho de Lucas remonta aos anos 63 a 67,
enquanto o de João foi escrito no fim do primeiro século de nossa era.
João, o discípulo amado, estava presente; participou,
portanto, do episódio que narrou. Lucas não era apóstolo, mas pesquisou tudo
diligentemente (Lc 1, 3).
Mateus, apóstolo, também estava presente, mas não
relata o epidódio. Marcos, que não era apóstolo, informa fato parecido (Mc 16,
14), mas certamente diverso, pois fala nos ONZE (no episódio a que nos
referimos, só DEZ estavam presentes).
Enfim, desejamos pinçar de Jo 20, 19-20, a passagem em
que o apóstolo narra que Jesus VEIO e “colocou-se no meio deles”. Quem eram
ELES? Apenas DEZ, pois Tomé estava ausente (Jo 20, 24) e Judas Iscariotes,
tomado pelo remorso, enforcara-se ao saber que Jesus fôra condenado (Mt 27,
3-5).
Tudo se passa depois da RESSURREIÇÃO, mas João usa a
palavra VEIO, como que para materializar a presença de Jesus. Note-se
que Marcos e Lucas dizem APARECEU. Queriam, talvez, dar uma conotação
espiritual? Nós, em Português, dizemos “APARECEU uma alma”. Não dizemos
“VEIO uma alma”. Não sabemos Grego nem conhecemos os originais de Lucas
e João; também desconhecemos o Aramaico e a primeira versão de Marcos que, com
muitas expressões latinas, foi dirigida aos cristãos de Roma. Não podemos
afirmar que o APARECEU de Lucas e de Marcos tenham realmente o resquício
de APARIÇÃO ESPIRITUAL, nem que o VEIO de João pretenda
referir-se à presença CORPORAL de Jesus, até porque Lucas diz
textualmente que Jesus pediu algo para comer e os apóstolos deram-lhe um pedaço
de peixe assado, que Jesus comeu à vista de todos (Lc 24, 41-43).
O que acima escrevemos é apenas a introdução sumária
ao comentário do episódio narrado por João em 20, 19-20. Adiante, o evangelista
diz que Tomé “não estava com eles quando VEIO Jesus” (20, 24). E
quando seus companheiros contaram-lhe, “Vimos o Senhor!”, Tomé exprimiu
a sua INCREDULIDADE, embora todos DEZ afirmassem que TINHAM VISTO JESUS E ELE LHES MOSTRARA AS MÃOS E O
LADO. Tomé, talvez por simples exagero e FORÇA DE EXPRESSÃO, respondeu-lhes:
“Se não vir a abertura dos cravos em suas mãos, e não puser o dedo no lugar
dos cravos e não colocar a mão em seu lado, NÃO ACREDITAREI” (Jo 20, 25).
Continua João: oito dias depois NOVAMENTE VEIO
Jesus, estando Tomé com os discípulos. Jesus, depois de desejar-lhes a paz,
dirigiu-se diretamente a Tomé e convidou-o a introduzir o dedo nas chagas, ver
Suas mãos e colocar a mão no Seu lado. E disse-lhe: “Não sejas incrédulo,
mas fiel.” (Jo 20, 26-27).
Depois lhe falou Jesus, provavelmente com uma certa
tristeza: “Creste porque viste? Felizes os que crêem sem terem visto”
(Jo 20, 29). Em algumas Bíblias, no lugar de FELIZES, a tradução é
BEM-AVENTURADOS.
TOMÉ, em sua
vida de Apóstolo, demonstrou várias vezes a sua fé, a firme crença nos
ensinamentos do Mestre, como se vê em Jo 11, 16 e 14, 5. Tornou-se,
todavia, o SÍMBOLO do crente racionalista, que precisa ver para crer. Esta a razão maior por que cientistas,
acostumados ao microscópio de seus laboratórios e teorias, têm dificuldade de ver Deus, como nós, em tudo que nos rodeia.
O que realmente queremos expressar é que a FÉ —
sendo dom de Deus, gratuito, portanto — exige de nós — os agraciados com a FÉ
dos que “crêem sem terem visto”, — algo efetivamente muito difícil: COERÊNCIA.
Ainda que BEM-AVENTURADOS, como nos chamou há
dois milênios o nosso SALVADOR, precisamos de SUA ajuda especial
e de oração permanente para não fraquejarmos e não O negarmos, como
PEDRO (Mc 14, 66-72; Lc 22, 54-62 e Jo 18, 15-27) e como ocorre conosco a cada
momento.
O nosso discurso — o que dizemos — deve ser EFETIVAMENTE
VIVIDO, EM TODA NOSSA EXISTÊNCIA.
Não podemos pertencer ao time dos que afirmam: “Faça
o que eu digo e não o que faço”.
Sabemos que não é fácil VIVER A FÉ. Mas ISSO
deve ser sempre a nossa meta. Não raro nós nos surpreendemos porque não
compreendemos a nós mesmos, fazendo o mal que não queremos e deixando de
realizar o bem que desejamos (Rom 7, 15).
Se São Paulo declara o grande conflito que ele próprio
experimentava, que podemos dizer nós, pobres pecadores, embora buscando sempre
a santidade? (1Cor 1, 2; Rom 1,7; Col 1, 2 e Ef 1, 1).
VIVER A FÉ é seguir o mandamento novo, que
Jesus deu aos discípulos após a ceia derradeira: “Que vos ameis uns aos
outros; que, assim como eu vos amei, vós também vos ameis uns aos outros” (Jo,
13, 34).
Amar o OUTRO é fazer-lhe o que gostaríamos que nos
fizessem (Mt 7, 12). É dar
gratuitamente o que de graça recebemos (Mt 10, 8). Parece fácil, mas na prática
não é bem assim, como o comprova o nosso dia-a-dia. Se é difícil, não
significa, todavia, que é impossível. Apenas não podemos fazê-lo sozinhos.
Precisamos da ajuda permanente de Deus e dos irmãos, SEUS instrumentos,
e a ELE devemos recorrer constantemente.
Mas o grande preceito de Jesus, conclamando-nos à
perfeição (Mt 5, 48), e a SUA garantia de atender nossos pedidos (Jo 16,
23), impelem-nos a lutar, com uma tenaz perseverança, para superar a
cada dia as nossas falhas, rogando insistentemente a Deus, em nome de
Jesus, que nos permita ser COERENTES, VIVENDO A NOSSA FÉ.
Vivê-la importa em partilhar com o outro a
graça da FÉ recebida de Deus.
Essa partilha, feita individualmente, produz pouco
fruto. Para multiplicar o fruto do nosso esforço, devemos uní-lo ao de todos
nossos irmãos, particularmente ao daqueles que comungam a mesma FÉ.
A UNIÃO FAZ A FORÇA, reza a sabedoria popular. E o
ponto de UNIÃO dos irmãos na FÉ é a Paróquia. Lá conheceremos outros irmãos, e
só nos conhecendo poderemos amar-nos e juntar nossas forças para levar Jesus
àqueles que ainda não o conhecem e que, portanto, não podem amá-lO. É nossa
responsabilidade conduzir o OUTRO — a quem devemos amar — ao Amor infinito de
Jesus.
Como fazê-lo? De mil maneiras, resumidas em uma só: amando-nos
uns aos outros. Porque, se nos amarmos, SÓ O BEM PROCURAREMOS FAZER A
TODOS.
SERVINDO SOBRETUDO DE EXEMPLO (Jo 13, 15), EM
TODOS OS AMBIENTES: PERANTE A FAMÍLIA, NO TRABALHO, NA SOCIEDADE, NA IGREJA OU
NA RUA. NA VERDADE, AS 24 HORAS DE TODO DIA, ATÉ O FIM DA NOSSA CAMINHADA E A
PARTIDA PARA A GRANDE VIAGEM QUE, NUM ÁTIMO, LEVAR-NOS-Á À CASA DO
PAI.
RSC/Rio, domingo, 14 de março, 1999, 11:20 h /
Revisado em 22.04.01
Autor:
Valmir Rocha
Crônica: Os Homens de Minha Terra
OS HOMENS DE MINHA TERRA.
Vou botar no papel o que sempre
senti por alguns cidadãos de Camocim, camocinenses que marcaram época e rolaram
como engrenagens no movimento sincronizado do comércio local. Infelizmente, já
saíram do nosso convívio, mas ficaram na nossa memória. Funcionário do Banco do
Brasil e ocupando, durante muito tempo, o setor de cadastro, pude conviver,
intima e confidencialmente, com os comerciantes locais. Quando relembro aqueles
tempos que já lá vão, instintivamente, se me acende a admiração por três deles.
E um sentimento da mesma natureza do que eu sinto pela minha primeira
professora, Dona Maria do Carmo Carneiro. Admiração espontânea pelas lições que
aprendi deles. O primeiro é o Sr. José Trévia, que negociava quase vizinho ao
Banco do Brasil, sediado então onde é hoje o Varejão Machado. Sério e de poucos
sorrisos, negociava com motores de cevar mandioca e não mim lembro mais que
outras mercadorias. Mas o que me ficou aceso na memória a lisura de seus
negócios. Era de ótimo conceito, jamais deu trabalho no Cadastro, nunca se
viram títulos protestados de sua responsabilidade e velava pelo seu nome como o
zelo de um eremita. O outro é o José Siebra. José Siebra veio daqueles baixos
longínquos de sua vida comercial, em que ele, com uma velha motocicleta, fazia
o serviço de atendimento dos usuários das máquinas de costura “Singer”. Depois,
passou para um Jeep mais velho que o Camocim já conheceu. Ele pegava parelha
com o Jeep do Edmundo Fontenele. Mas o
José Siebra se fez, e cresceu, e chegou, naquele tempo, a maior comerciante de
eletrodoméstico da cidade, estabelecido nas adjacências da Agência do Banco do
Brasil. Mas não são essas imagens que, primeiro, afloram quando penso nele.
Quando penso nele, vejo o José Siebra consertando a sua motocicleta, para sair com ela nas
labutas comercias do dia seguinte. Penso no pai de família de muitos filhos, ao
lado de sua esposa, Dna. Elzanira, com quem vivia harmoniosamente, pois fui seu
vizinho. Cresceu, cresceu zelando pelo seu nome, sem títulos protestado, sem
nunca da trabalho a bancos, chegando a dono de posto de gasolina. E aconteceu
que o trabalho, o sagrado mistério do trabalho, que foi a constante imperiosa
de sua vida, não lhe deixou tempo para cuidar de sua saúde. Morreu
precocemente. Hoje, “José Siebra” é um nome que representa a lisura e a
honradez do comércio local. Um outro cidadão que me ficou na memória e que me
ensinou lições de vida foi o Sr Hipolito Ricardo Pinto. Lembro-me de quando eu
tomava informações cadastrais na escrivaninha dele. O ar condicionado do
Hipolito era “ar condicionado” no sentido próprio da palavra. Era ar
condicionado. Era umas tubulações grossas que abriam para o vento em cima do
telhado. Desciam e despejavam o vento em cima da escrivaninha do Hipolito.
Reticente quando dava informações cadastrais, pois não se deliciava em falar da
“vida alheia”, teve ocasiões de conhecer, intimamente, à sua esposa. Jamais
reclamava da vida: sorriso perene nos lábios. Carinhoso e fiel a sua esposa, a
Dna. Ester, jamais externou qualquer murmuração
que traísse arrependimento pela vida de casado. Nunca o vi bêbado nem pulando a
cerca em sua vida conjugal. Nunca vi títulos protestados nem credores
murmurando por contas atrasadas dele. A ação mais leviana que vi dele era sacar
fora a camisa quando saia da loja. Ele me ensinou coisas pra vida e estou
pagando as lições que recebi, lançando-as no papel. Esse três acima são heróis
que douram os passados de Camocim, quiçá uma estátua para honrar o presente de
nossa urbe.
Francisco
Valmir Rocha.
Autor:
Artur Queirós
Crônica: As Glórias do Herói
AS GLÓRIAS DO HERÓI
As
bisbilhotices e ocorrências do passado, em cada cidade, são, via de regra,
narradas por cronistas fiéis ao relato, e constituem imagem viva e latente de
tempos idos, quase sempre esquecidos de seus filhos, já pela luta trepidante da
sobrevivência, nestes tempos bicudos de dificuldades, cujas culpa recai em boa
parte, em governantes, imediatistas e omissos, ressalvadas as exceções de praxe
cercadas eles, por parte de ladrões, os chamados “colarinhos brancos”, por
todos os lados, e já, também, pelo desprezo involuntário e descuidado do povo,
no cultivo a memória de sua gente. O Brasil, em si, ó um País sem memória, e
acentuadamente inculto. Sem embargo, procuramos, procuramos sempre, ordenar
retalhos de um passado que vai longe, em nosso meio, já mencionado fatos
históricos e pitorescos singulares passagens do dia de antanho, já perseguindo
o itinerário de trazer e fixar na mente de nossa atual geração, definida
posição do cenário da URBS, a cidade que nos viu nascer.
Retomemos
a era da década de 30, deste século e milênio findante, e vamos encontrar, lá
pelos ano de 1934, os primeiros vôos de transporte aéreo neste Brasil imenso,
novidade que era realizada por hydro-aviões, pequenos e precários, e que
dimanavam todos, de outros países, como os da Cia Nyrba do Brasil, S/A, que
lotavam com seis passageiros e dois tripulantes; A Condor, de origem alemã, e,
logo depois, a Norte América, com seus Clipes e Baby Clipes bastante mais
desenvolvidos, aí para vinte ou trinta passageiros, aproximadamente. A Nyrba,
em 35, a Condor, em 35, e os Clipes, lá pelos anos de 1939. Podemos mencionar,
sem receio de contestação, haver exercido, Camocim, pioneirismo interiorano, no
Ceara, no que infere a transporte aéreo de passageiros, eis que, pela
inexistência de campos de pouso adequados, a inclinação aviatória, girava em
torno dos hidros, no inicio de novo sistemas implantado. Aviões de passageiros
com pouso em terra, vieram depois, e hoje predominam. Os hidros chegavam ao
Brasil, estrategicamente, pelo Norte, na faixa litorânea, onde encontravam, sem
perlaços, seus naturais capôs de pouso,
singularmente chamados hidro-vias. Pelo litoral, pois, chegava ao Rio de
Janeiro, o ponto final do itinerário. Era uma beleza para os olhos, vê-los
deslizarem mansamente sobre a linha do mar, quais graciosos e elegantes cisnes.
Existia, portanto, um determinado ponto de apoio, na cidade de Camocim, na bem
cuidada casinha flutuante, com dois cômodos, apenas, ancorada na baía do porto,
afastada do cais, distante da beira da praia, e montada sobre pessantes flutuadores, e que logo após amerissarem, os
hidros dirigiam-se, lentamente, a ela seu ponto de apoio, refrigério e repouso
aos passageiros, durante a faina de manutenção. Eram servidos lanches ligeiros
e saboroso cafezinho, tudo regado pela suave ar puro, da brisa das tranqüilas
águas de verde Império de Netuno, nesta faixa do Atlântico Norte.
Para
o fim da década de 30, os americanos construíram em terra firme, um ponto de
apoio para seus aparelhos, jacente a orla marítima, no bairro dos coqueiros, em
amplo quadrilátero, a chamada PANAIR, ainda hoje lembrada com recordações. Ali
edificaram vários prédios, para suporte técnico e de passageiros, estações bem
decorada, casa de motores, almoxarifado, departamento de combustíveis e
lubrificantes, tudo em material da melhor qualidade em estilo americano, muito
limpo e bem cuidado. Por passarem ali membros do “set” internacional das artes,
da cultura, barões de empresas, e, notadamente, artistas do cinema americano,
em busca do Rio de Janeiro. Transitaram portanto, por Camocim, muitos notáveis,
gente importante, do que mencionamos os artistas: Henry Fonda, pai de Jane
Fonda uma pai-d’eguão de quase dois metros, cabelo ruivo e muito corado; Greta
Garbo por aqui esteve por duas vezes, na última, em 1943, exibindo-se para
soldados e oficiais americanos aqui destacados, na Base Militar de apoio, da
Segunda Guerra Mundial, que aqui construíram. Por aqui transitaram ainda, Buck
Jones, George O’brie em, Charles Starret, Sonja Henie e muitos outros “astros”
e “estrelas”. Quando por aqui transitava essa gente, o povo sabia
antecipadamente, pois que a PANAIR anunciava, e lá muitos estavam, para vê-los
e aplaudi-los.
Dona
Darcy Vargas, esposa do grande Presidente Vargas, por aqui transitou com
destino a Norte América, ocasião em que muito aplaudida foi, pelos
camocinenses. Quando da demora do Hidro-avião, por quase uma hora, na cidade, o
Grupo Escolar José de Barcelos, por sua Diretora, dona Odette Mota, mandou ao
local da PANAIR, uma legião de bem cuidados alunos, fardamento limpo e
engomado, sob comando de uma professora alta, corada e bem maquiada, com a
finalidade de prestar merecida homenagem à Primeira Dama do País, dona Darcy
Vargas. O aluno Benevinuto Cellini dos Santos irmão do Zé dos Santos da Estrada
de Ferro, e tio de Antonio Avelar, foi o mensageiro escolhido para entregar um
buquê de Perfumosas rosas naturais, como oferta da simpatia e reverência do
povo de Camocim, à primeira dama do País. Dona Darcy o recebeu visivelmente
comovida, ao pronunciar carinhosos agradecimento. O contingente de alunos
entoou cânticos patrióticos, pelo seu coral, bem como, significativa canção,
composta e musicada em sua homenagem.
O
Cliper da PANAIR amerissava no amplo estuário de águas tranqüilas, para além da
praia dos coqueiros, numa planura líquida de dois quilômetros de largura, e
comprimento a perder de vista. Pousado, o aparelho deslizava mansamente em
marcha de navegação comum, apoiado pelo sistema de dois pequenos botes
estabilizadores e flutuantes, colocados no extremo de cada lado da asa, que
ficava na parte superior da navegação, em que eram alojados dois motores de
cada lado, motores a hélice. Ao ancorarem no trapiche da Companhia, saíam por
uma espécie de portaló, na parte superior do hidro-avião, os passageiros, em
busca dos salões em terra, no complexo da estação, o chamado ponto de apoio. No
extremo do trapiche, parte que faz ligação à terra firme, lá estava, em atitude
deplorável, a molecada reunida e pedir aos passageiros e tripulantes em
transito, moedas: “Nica, nica”, gritavam de braços estendidos, ao que os
gringos atiravam-lhes moedinhas, filmando a casa, ou clicando a maquina
fotográfica, quando zombeteiramente e rindo, exclamava: “Macaquito,
macaquito!”.
Voltemos
agora, aos primeiros hydro-aviões da Nyrba, aqui agenciados pela firma
comercial Albuquerque & cia., cujo gerente era o Sr. Ramos Fontenele,
conceituado empresário de Camocim. Depois de algum tempo de passagem pela
cidade, desses aviões, sem que embarcasse ou desembarcasse um só passageiro,
finalmente, um estivador do porto, chamado João Luiz de França, presidente da
sociedade representativa da classe, denominada DEUS E MAR, homem espadaúdo o de
compleição física um pouco acima do normal ou média, tez mais para escura e de
cuja boca afloravam dentes de ouro, como era chique da classe social menor,
muito estimado pelos graúdos da paróquia, e benquisto de todos, aceitou uma
proposta da turma de amigos, intermediados pelo senhor Fernando Coelho, para
viajar por terra até a vizinha cidade de Parnaíba, limítrofe do Estado do Piauí
(talvez em montaria de alquiler, visto não existirem rodovias) e de lá
regressar pelo hidro-avião da Nyrba, com toda a despesa, inclusive hospedagem
no melhor hotel, financiadas pelo grupo de amigos. Parnaíba dista de Camocim,
cerca de 120 quilômetros. Dito e feito, o avião ancorou aqui poucos dias após
na estação flutuante, em horas da metade do dia, sol quente, e logo mais, no cais
fronteiriço da beira da praia, assomou de uma canoa que fazia o transporte do
pequeno trecho, caiu nos braços do povo ululante, o nosso querido herói, o
primeiro camocinense a viajar em avião comercial. Desceu bem elegante, em traje
de casimira azul-marinho, camisa branca de colarinho e gravata azul, calçando
sapato de verniz preto, de reluzente brunidura. Ao nosso herói, em primeira
mão, foi dado o título nobilitante de CONSUL DE CAMOCIM NA PARNAIBA, pela
solene proclamação de Fernando Coelho. O foguetório começou a pipocar (foguete
que era feito de taboca e rabo de cipó, mais ou menos um metro o feito na
Viçosa, os únicos que existiam e às vezes subia destrambocado), e a banda de
música local, começou a tocar dobrados, começando pelo “saudades de minha terra”
do Maestro N.N. e por ai foi, enquanto o CONSUL recebia sorridente e
compenetrado, abraços da multidão Fernando Coelho, em nome de todos os
recepcionistas, proferiu vibrante improviso, em que exaltou as qualidades do
novo herói, que foi o primeiro camocinense devassar os ares, navegando em avião
de carreira comercial. Do cais, a multidão, com o CONSUL e a comissão de
recepção do jornal semanário de Camocim, A RAZAO, cujo redator e proprietário,
o intelectual Sr. André Pessoa, o entrevistou solenemente, enquanto a furiosa
não parava de tocar e o foguetório a pipocar, até que um foguete adoidado
correu na horizontal, penetrou pela boca do contrabaixo, onde explodiu e quase
mata de susto, o musico que ficou chamuscado e perdeu as pestanas.
No
próximo numero, semana seguinte, o jornal saiu com reportagem de pagina
inteira, louvando a coragem e o pioneirismo do nosso CONSUL, primeiro daqui, a
navegar pelos ares. Até hoje, João Luiz de França, pai de Bandú e avô de
Ferrucio, é lembrado com reverente saudade, e, na rua em que morava, parece-me
rua da fumaça, foi rebatizada com o nome de ARRAIAL LUIZ DE FRANÇA, em sua
memória, homenagem justa e sem protocolos oficiais, na espontaneidade do povo.
Que saudade eu tenho!!!
Ainda dizemos, “Camocim terra do
já teve”, isto nos lembra e nós dói por ainda estar bem vivos em nossa
lembrança os momentos de turbulência que passamos tempos atrás. Foi quando perdemos
o que tínhamos de melhor, mais
importante e valioso, que era o nosso PORTO e nossa ESTRADA DE FERRO. Lutávamos
com patriotismo e determinação, onde no afã de nossa luta estavam unidos todos
os camocinenses, “rico, pobre, branco e preto”. De braços dados cantávamos o
nosso hino, dando o nosso grito de ordem, que ainda hoje escutamos. Tudo foi em
vão e, lamentavelmente, perdíamos o Porto, a esperança de continuar nosso
intercambio comercial com os outros Estados e Países. As nossas famílias e a sociedade
ainda sentem a falta dos nossos clubes: Camocim, Comercial e Balneário. Neles,
dançávamos nossos gostosos boleros, o sambinha miúdo e, em fevereiro, o
carnaval que contaminava a cidade. e tome frevo!... Nesse clubes foi onde ficou
registrado em nosso coração nossa primeira namorada. E agora o que fazer?...
nada! Pelo menos podemos dizer: bons tempos! E o cinema (João Veras), que vem
lá do tempo do nosso pintor, pessoa extrovertida e querida. Colocava as
tabuletas nas principais esquinas da cidade, avisando o filme do dia. Mais
tarde, tínhamos como administrador nosso também Helio Veras, época em que foram
encerradas suas atividades. Por que tantas portas fechadas? Onde está meu ir: e
amigo Edilson Coelho, - “onde estais, onde estais que não respondes?” e a nossa
querida estrada de Ferro, o transporte do rico, do pobre e dos estudantes, está
parada, sem vida, mas o POVO não!. Os camocinenses dos Mares Bravios, com seus
corpos com cheiro de peixe, estão bem vivos. Eles atualmente estão organizados,
mais determinados, melhor politizados e mais sábios. Camocim de 70.000
habitantes, de ruas asfaltadas, de ponte aérea, de calçadão à “beira-mar” de
industria pesqueira e calçados. Com turismo fluente, com italianos pertinentes,
de TV a cabo. Com celulares ajudando os taxistas. De intelectuais, pintores,
poetas, mesmo tendo poucas peças com flores! O que diria o nosso irmão Pinto
Martins sobre a sua Praça? Por baixo, não tenho coragem de dizer por cima cheia
de “pombos pretos”. Mas como Deus também é filho de Camocim, nos permite ainda
que sentimos o vento do mar , o sol a nos bronzear e, do alto das falecias das
Barreiras, testemunhemos a Lua deitar-se sobre o mar, provocando aos poetas e
pessoas de alma limpa debulharem suas poesias. Mas, mesmo assim, sinto saudades
de ontem. Ia esquecendo-me! Em nosso novo Camocim, temos três jornais
(circulando), seis estações de Radio,
uma dúzia de Médicos, meia de Dentistas, uma Faculdade (que é uma UVA), uma
Igreja nova, e uma cidade cheia de gente.
Joaquim Parente.
Autor:
Avelar Santos
Crônica:
Velha Casa
VELHA CASA
Naquela
rua tranqüila, no centro da cidade, perto do mar e do coração, na elegante - e
amada - Engenheiro Privat, há uma velha casa, edificada de sal e sol,
desbotada impiedosamente pelas intempéries e rabugices dos séculos, onde os
ventos uivam em cada canto, espargindo bênçãos e afugentando os recalcitrantes
fantasmas, fazendo, dela, uma amante perfeita: charmosa, bela e
submissa.
Lá, eu nasci.
Ela é ladeada por duas outras
irmãs siamesas e fica de frente para o nascente, olhando sempre sonhadoramente
para o Atlântico, beijando ternamente a fronte da Estação Ferroviária de
Camocim, palco inesquecível de tantas chegadas e partidas, durante os
indizíveis - e longínquos - dias de minha mocidade.
Na tranqüilidade, segurança e
singeleza de suas paredes, certamente passei os dias mais felizes da minha
vida.
É uma casa centenária, sem
floreios arquitetônicos, de altura incomum, com um amplo corredor de acesso, de
quartos aconchegantes e cozinha acolhedora, com um jardinzinho encantador, dona
inquestionável de muitos segredos e mistérios. Altaneira, na placidez majestosa
de sua meninice, presenciou silenciosamente o desabrochar da urbe, observando o gracioso
desenvolvimento de toda sua feminilidade e encanto.
Naquela casa, eu vivi. Ali,
sonhei tantos sonhos.
Ainda sou um menino, perdido na
sua imensidão, a vaguear paciente e incessantemente pelos seus aposentos,
embrenhando-me, cada vez mais, em sua doce solidão.
Antigamente a cegonha gostava
muito do lugar e aportava, por lá, todos os anos, trazendo, muito solícita e
compenetrada, invariavelmente fora de hora, na mansidão e quietude da noite
alta, envolta na densa e negra escuridão, sua carga preciosa, tão ansiosamente
aguardada por todos, de futuros irmãozinhos meus.
Se a felicidade existe, foi lá
inquestionavelmente que a encontrei. Assim, tive o privilégio sublime de
desfrutar da magia de minha infância inteira na sua benfazeja e calorosa
companhia, esforçando-me para aprender os seus sábios ensinamentos. Havia um
imenso quintal, repleto de fruteiras, sonhos e passarinhos, um verdadeiro
paraíso, aonde costumava passar boa parte das tardes cheias de Sol sob a sombra
das copas amigas dos tamarineiros e das goiabeiras, dando corda ao pensamento,
deixando-o voar livre – e irrequieto - pelo infinito. Ah! E o que dizer do
arrebatar febril das asas ligeiras dos primeiros e inesquecíveis amores que
incendiaram a minha imaginação e abrasaram definitivamente o meu coração?
Quantas vezes, meu Deus, ao ver-me chorando, pelos cantos, solitário, ela
não me tomava carinhosamente nos braços e, cantando velhas e perdidas canções
de ninar, acalmava-me a alma, calando-me o pranto contido, consolando-me minhas
lancinantes dores?
A um quarteirão dela, a
distância de um tiro de estilingue, um Cinema nos chamava, aos gritos, toda
noite, para adentrarmos alegremente sua franciscana sala de exibição e, como
abençoados espectadores, retroagirmos ao Velho Oeste americano,
pontilhado de perigos e emoções. Durante uma cascata de anos, aquela foi uma de
minhas maiores alegrias!
A quietude das madrugadas - e das
ruas – fazia a velha casa recolher-se mais cedo, dormindo o sono dos justos,
com janelas e portas abertas, sem nenhuma preocupação. Acordava
invariavelmente, pelas quatro da matina, quando o ronronar do trem
anunciava sua jornada iminente. Naquele lusco-fusco ouvia meu Pai despedindo-se
de minha querida Mãe, ao sair para o trabalho.
O coração, embora cansado e quase
mudo, fala mansamente de tudo que vivi naquele tempo maravilhoso.
Obrigado, velha amiga, pelos
imorredouros anos em que gentilmente me abrigastes.
Hoje, naquela casa, os fantasmas
rondam – e espreitam - em cada canto, e um silêncio sufocante jaz no seu âmago.
Conosco, companheira, que pena, o tempo foi muito cruel e rude: Passaram-se
rapidamente os anos – e eis que de repente, ingloriamente percebemos, partiu,
de nós, eternamente, a alegre e sublimeJuventude.
AVELAR SANTOS
