domingo, 20 de maio de 2012

O Literário.

Dando continuidade as postagens no blog www.aradisilva.blogspot. com matérias do Jornal O Literário alusivo ao seu aniversário vamos fechar com chave de ouro esse trabalho com crônicas de Raimundo Silva, Avelar, Artur, Joaquim Parente e Valmir Rocha.

Autor:
Raimundo Silva
Crônica:
Fé e Vida


RAIMUNDO S. CAVALCANTE — advogado — OAB/RJ 1051/A  —  OAB/SP 7378  —  CPF 007.468.788-34       
Av. Rio Branco, 120/Sala 416  —  Centro  —  Rio de Janeiro, RJ  —  CEP 20040-001
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DIREITOS AUTORAIS: Este trabalho — com 2 folhas de linhas numeradas — foi escrito por RAIMUNDO SILVA CAVALCANTE, a quem pertencem os respectivos direitos autorais, nos termos da Convenção de Berna, de 26.06.48, aprovada pelo Decreto Legislativo Nº. 59, de 19.11.51; do art. 5º, inciso XXVII, da Constituição Federal de 1988; e da Lei 9.610, de 19.02.98 e legislação mantida pela mesma. É permitida a sua reprodução, parcial ou total, desde que mencione o nome do autor (Código Penal, art. 184). Rio de Janeiro, 14 de março, 1999. Raimundo        Silva Cavalcante.
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fé e vida



O apóstolo João é o único evangelista que narra o famoso episódio.

Lucas faz referência ao mesmo (24, 36-40), mas sem os detalhes que constam em João.

Ambos escreveram em Grego. Lucas, médico ilustre, de educação grega, em línguagem apurada; enquanto João, simples pescador, gravou em Grego vulgar a sua narrativa.

O Evangelho de Lucas remonta aos anos 63 a 67, enquanto o de João foi escrito no fim do primeiro século de nossa era.

João, o discípulo amado, estava presente; participou, portanto, do episódio que narrou. Lucas não era apóstolo, mas pesquisou tudo diligentemente (Lc 1, 3).

Mateus, apóstolo, também estava presente, mas não relata o epidódio. Marcos, que não era apóstolo, informa fato parecido (Mc 16, 14), mas certamente diverso, pois fala nos ONZE (no episódio a que nos referimos, só DEZ estavam presentes).

Enfim, desejamos pinçar de Jo 20, 19-20, a passagem em que o apóstolo narra que Jesus VEIO e “colocou-se no meio deles”. Quem eram ELES? Apenas DEZ, pois Tomé estava ausente (Jo 20, 24) e Judas Iscariotes, tomado pelo remorso, enforcara-se ao saber que Jesus fôra condenado (Mt 27, 3-5). 

Tudo se passa depois da RESSURREIÇÃO, mas João usa a palavra VEIO, como que para materializar a presença de Jesus. Note-se que Marcos e Lucas dizem APARECEU. Queriam, talvez, dar uma conotação espiritual? Nós, em Português, dizemos “APARECEU uma alma”. Não dizemos “VEIO uma alma”. Não sabemos Grego nem conhecemos os originais de Lucas e João; também desconhecemos o Aramaico e a primeira versão de Marcos que, com muitas expressões latinas, foi dirigida aos cristãos de Roma. Não podemos afirmar que o APARECEU de Lucas e de Marcos tenham realmente o resquício de APARIÇÃO ESPIRITUAL, nem que o VEIO de João pretenda referir-se à presença CORPORAL de Jesus, até porque Lucas diz textualmente que Jesus pediu algo para comer e os apóstolos deram-lhe um pedaço de peixe assado, que Jesus comeu à vista de todos (Lc 24, 41-43).

O que acima escrevemos é apenas a introdução sumária ao comentário do episódio narrado por João em 20, 19-20. Adiante, o evangelista diz que Tomé “não estava com eles quando VEIO Jesus” (20, 24). E quando seus companheiros contaram-lhe, “Vimos o Senhor!”, Tomé exprimiu a sua INCREDULIDADE, embora todos DEZ afirmassem que TINHAM  VISTO JESUS E ELE LHES MOSTRARA AS MÃOS E O LADO. Tomé, talvez por simples exagero e FORÇA DE EXPRESSÃO, respondeu-lhes: “Se não vir a abertura dos cravos em suas mãos, e não puser o dedo no lugar dos cravos e não colocar a mão em seu lado, NÃO ACREDITAREI” (Jo 20, 25).

Continua João: oito dias depois NOVAMENTE VEIO Jesus, estando Tomé com os discípulos. Jesus, depois de desejar-lhes a paz, dirigiu-se diretamente a Tomé e convidou-o a introduzir o dedo nas chagas, ver Suas mãos e colocar a mão no Seu lado. E disse-lhe: “Não sejas incrédulo, mas fiel.” (Jo 20, 26-27).

Depois lhe falou Jesus, provavelmente com uma certa tristeza: “Creste porque viste? Felizes os que crêem sem terem visto” (Jo 20, 29). Em algumas Bíblias, no lugar de FELIZES, a tradução é BEM-AVENTURADOS.
TOMÉ, em sua vida de Apóstolo, demonstrou várias vezes a sua fé, a firme crença nos ensinamentos do Mestre, como se vê em Jo 11, 16 e 14, 5. Tornou-se, todavia, o SÍMBOLO do crente racionalista, que precisa ver para crer.  Esta a razão maior por que cientistas, acostumados ao microscópio de seus laboratórios e teorias,  têm dificuldade de ver Deus, como nós,  em tudo que nos rodeia.

O que realmente queremos expressar é que a — sendo dom de Deus, gratuito, portanto — exige de nós — os agraciados com a dos que “crêem sem terem visto”, — algo efetivamente muito difícil: COERÊNCIA.

Ainda que BEM-AVENTURADOS, como nos chamou há dois milênios o nosso SALVADOR, precisamos de SUA ajuda especial e de oração permanente para não fraquejarmos e não O negarmos, como PEDRO (Mc 14, 66-72; Lc 22, 54-62 e Jo 18, 15-27) e como ocorre conosco a cada momento.

O nosso discurso — o que dizemos — deve ser EFETIVAMENTE VIVIDO, EM TODA NOSSA EXISTÊNCIA.

Não podemos pertencer ao time dos que afirmam: “Faça o que eu digo e não o que faço”.

Sabemos que não é fácil VIVER A FÉ. Mas ISSO deve ser sempre a nossa meta. Não raro nós nos surpreendemos porque não compreendemos a nós mesmos, fazendo o mal que não queremos e deixando de realizar o bem que desejamos (Rom 7, 15).

Se São Paulo declara o grande conflito que ele próprio experimentava, que podemos dizer nós, pobres pecadores, embora buscando sempre a santidade? (1Cor 1, 2; Rom 1,7; Col 1, 2 e Ef 1, 1).

VIVER A FÉ é seguir o mandamento novo, que Jesus deu aos discípulos após a ceia derradeira: “Que vos ameis uns aos outros; que, assim como eu vos amei, vós também vos ameis uns aos outros” (Jo, 13, 34).
                                                                                                                                                          
Amar o OUTRO é fazer-lhe o que gostaríamos que nos fizessem (Mt 7, 12). É dar gratuitamente o que de graça recebemos (Mt 10, 8). Parece fácil, mas na prática não é bem assim, como o comprova o nosso dia-a-dia. Se é difícil, não significa, todavia, que é impossível. Apenas não podemos fazê-lo sozinhos. Precisamos da ajuda permanente de Deus e dos irmãos, SEUS instrumentos, e a ELE devemos recorrer constantemente.

Mas o grande preceito de Jesus, conclamando-nos à perfeição (Mt 5, 48), e a SUA garantia de atender nossos pedidos (Jo 16, 23), impelem-nos a lutar, com uma tenaz perseverança, para superar a cada dia as nossas falhas, rogando insistentemente a Deus, em nome de Jesus, que nos permita ser COERENTES, VIVENDO A NOSSA FÉ.

Vivê-la importa em partilhar com o outro a graça da FÉ recebida de Deus.

Essa partilha, feita individualmente, produz pouco fruto. Para multiplicar o fruto do nosso esforço, devemos uní-lo ao de todos nossos irmãos, particularmente ao daqueles que comungam a mesma FÉ.

A UNIÃO FAZ A FORÇA, reza a sabedoria popular. E o ponto de UNIÃO dos irmãos na FÉ é a Paróquia. Lá conheceremos outros irmãos, e só nos conhecendo poderemos amar-nos e juntar nossas forças para levar Jesus àqueles que ainda não o conhecem e que, portanto, não podem amá-lO. É nossa responsabilidade conduzir o OUTRO — a quem devemos amar — ao Amor infinito de Jesus.

Como fazê-lo? De mil maneiras, resumidas em uma só: amando-nos uns aos outros. Porque, se nos amarmos, SÓ O BEM PROCURAREMOS FAZER A TODOS.

SERVINDO SOBRETUDO DE EXEMPLO (Jo 13, 15), EM TODOS OS AMBIENTES: PERANTE A FAMÍLIA, NO TRABALHO, NA SOCIEDADE, NA IGREJA OU NA RUA. NA VERDADE, AS 24 HORAS DE TODO DIA, ATÉ O FIM DA NOSSA CAMINHADA E A PARTIDA PARA A GRANDE VIAGEM QUE, NUM ÁTIMO, LEVAR-NOS-Á À CASA DO PAI.

RSC/Rio, domingo, 14 de março, 1999, 11:20 h / Revisado em 22.04.01


Autor:
Valmir Rocha
Crônica: Os Homens de Minha Terra

OS HOMENS DE MINHA TERRA.

Vou botar no papel o que sempre senti por alguns cidadãos de Camocim, camocinenses que marcaram época e rolaram como engrenagens no movimento sincronizado do comércio local. Infelizmente, já saíram do nosso convívio, mas ficaram na nossa memória. Funcionário do Banco do Brasil e ocupando, durante muito tempo, o setor de cadastro, pude conviver, intima e confidencialmente, com os comerciantes locais. Quando relembro aqueles tempos que já lá vão, instintivamente, se me acende a admiração por três deles. E um sentimento da mesma natureza do que eu sinto pela minha primeira professora, Dona Maria do Carmo Carneiro. Admiração espontânea pelas lições que aprendi deles. O primeiro é o Sr. José Trévia, que negociava quase vizinho ao Banco do Brasil, sediado então onde é hoje o Varejão Machado. Sério e de poucos sorrisos, negociava com motores de cevar mandioca e não mim lembro mais que outras mercadorias. Mas o que me ficou aceso na memória a lisura de seus negócios. Era de ótimo conceito, jamais deu trabalho no Cadastro, nunca se viram títulos protestados de sua responsabilidade e velava pelo seu nome como o zelo de um eremita. O outro é o José Siebra. José Siebra veio daqueles baixos longínquos de sua vida comercial, em que ele, com uma velha motocicleta, fazia o serviço de atendimento dos usuários das máquinas de costura “Singer”. Depois, passou para um Jeep mais velho que o Camocim já conheceu. Ele pegava parelha com o Jeep do Edmundo Fontenele. Mas  o José Siebra se fez, e cresceu, e chegou, naquele tempo, a maior comerciante de eletrodoméstico da cidade, estabelecido nas adjacências da Agência do Banco do Brasil. Mas não são essas imagens que, primeiro, afloram quando penso nele. Quando penso nele, vejo o José Siebra consertando  a sua motocicleta, para sair com ela nas labutas comercias do dia seguinte. Penso no pai de família de muitos filhos, ao lado de sua esposa, Dna. Elzanira, com quem vivia harmoniosamente, pois fui seu vizinho. Cresceu, cresceu zelando pelo seu nome, sem títulos protestado, sem nunca da trabalho a bancos, chegando a dono de posto de gasolina. E aconteceu que o trabalho, o sagrado mistério do trabalho, que foi a constante imperiosa de sua vida, não lhe deixou tempo para cuidar de sua saúde. Morreu precocemente. Hoje, “José Siebra” é um nome que representa a lisura e a honradez do comércio local. Um outro cidadão que me ficou na memória e que me ensinou lições de vida foi o Sr Hipolito Ricardo Pinto. Lembro-me de quando eu tomava informações cadastrais na escrivaninha dele. O ar condicionado do Hipolito era “ar condicionado” no sentido próprio da palavra. Era ar condicionado. Era umas tubulações grossas que abriam para o vento em cima do telhado. Desciam e despejavam o vento em cima da escrivaninha do Hipolito. Reticente quando dava informações cadastrais, pois não se deliciava em falar da “vida alheia”, teve ocasiões de conhecer, intimamente, à sua esposa. Jamais reclamava da vida: sorriso perene nos lábios. Carinhoso e fiel a sua esposa, a Dna. Ester, jamais externou qualquer murmuração que traísse arrependimento pela vida de casado. Nunca o vi bêbado nem pulando a cerca em sua vida conjugal. Nunca vi títulos protestados nem credores murmurando por contas atrasadas dele. A ação mais leviana que vi dele era sacar fora a camisa quando saia da loja. Ele me ensinou coisas pra vida e estou pagando as lições que recebi, lançando-as no papel. Esse três acima são heróis que douram os passados de Camocim, quiçá uma estátua para honrar o presente de nossa urbe.

Francisco Valmir Rocha.


Autor:
Artur Queirós
Crônica: As Glórias do Herói

AS GLÓRIAS DO HERÓI

            As bisbilhotices e ocorrências do passado, em cada cidade, são, via de regra, narradas por cronistas fiéis ao relato, e constituem imagem viva e latente de tempos idos, quase sempre esquecidos de seus filhos, já pela luta trepidante da sobrevivência, nestes tempos bicudos de dificuldades, cujas culpa recai em boa parte, em governantes, imediatistas e omissos, ressalvadas as exceções de praxe cercadas eles, por parte de ladrões, os chamados “colarinhos brancos”, por todos os lados, e já, também, pelo desprezo involuntário e descuidado do povo, no cultivo a memória de sua gente. O Brasil, em si, ó um País sem memória, e acentuadamente inculto. Sem embargo, procuramos, procuramos sempre, ordenar retalhos de um passado que vai longe, em nosso meio, já mencionado fatos históricos e pitorescos singulares passagens do dia de antanho, já perseguindo o itinerário de trazer e fixar na mente de nossa atual geração, definida posição do cenário da URBS, a cidade que nos viu nascer.
            Retomemos a era da década de 30, deste século e milênio findante, e vamos encontrar, lá pelos ano de 1934, os primeiros vôos de transporte aéreo neste Brasil imenso, novidade que era realizada por hydro-aviões, pequenos e precários, e que dimanavam todos, de outros países, como os da Cia Nyrba do Brasil, S/A, que lotavam com seis passageiros e dois tripulantes; A Condor, de origem alemã, e, logo depois, a Norte América, com seus Clipes e Baby Clipes bastante mais desenvolvidos, aí para vinte ou trinta passageiros, aproximadamente. A Nyrba, em 35, a Condor, em 35, e os Clipes, lá pelos anos de 1939. Podemos mencionar, sem receio de contestação, haver exercido, Camocim, pioneirismo interiorano, no Ceara, no que infere a transporte aéreo de passageiros, eis que, pela inexistência de campos de pouso adequados, a inclinação aviatória, girava em torno dos hidros, no inicio de novo sistemas implantado. Aviões de passageiros com pouso em terra, vieram depois, e hoje predominam. Os hidros chegavam ao Brasil, estrategicamente, pelo Norte, na faixa litorânea, onde encontravam, sem perlaços, seus naturais capôs de pouso, singularmente chamados hidro-vias. Pelo litoral, pois, chegava ao Rio de Janeiro, o ponto final do itinerário. Era uma beleza para os olhos, vê-los deslizarem mansamente sobre a linha do mar, quais graciosos e elegantes cisnes. Existia, portanto, um determinado ponto de apoio, na cidade de Camocim, na bem cuidada casinha flutuante, com dois cômodos, apenas, ancorada na baía do porto, afastada do cais, distante da beira da praia, e montada sobre pessantes flutuadores, e que logo após amerissarem, os hidros dirigiam-se, lentamente, a ela seu ponto de apoio, refrigério e repouso aos passageiros, durante a faina de manutenção. Eram servidos lanches ligeiros e saboroso cafezinho, tudo regado pela suave ar puro, da brisa das tranqüilas águas de verde Império de Netuno, nesta faixa do Atlântico Norte.
            Para o fim da década de 30, os americanos construíram em terra firme, um ponto de apoio para seus aparelhos, jacente a orla marítima, no bairro dos coqueiros, em amplo quadrilátero, a chamada PANAIR, ainda hoje lembrada com recordações. Ali edificaram vários prédios, para suporte técnico e de passageiros, estações bem decorada, casa de motores, almoxarifado, departamento de combustíveis e lubrificantes, tudo em material da melhor qualidade em estilo americano, muito limpo e bem cuidado. Por passarem ali membros do “set” internacional das artes, da cultura, barões de empresas, e, notadamente, artistas do cinema americano, em busca do Rio de Janeiro. Transitaram portanto, por Camocim, muitos notáveis, gente importante, do que mencionamos os artistas: Henry Fonda, pai de Jane Fonda uma pai-d’eguão de quase dois metros, cabelo ruivo e muito corado; Greta Garbo por aqui esteve por duas vezes, na última, em 1943, exibindo-se para soldados e oficiais americanos aqui destacados, na Base Militar de apoio, da Segunda Guerra Mundial, que aqui construíram. Por aqui transitaram ainda, Buck Jones, George O’brie em, Charles Starret, Sonja Henie e muitos outros “astros” e “estrelas”. Quando por aqui transitava essa gente, o povo sabia antecipadamente, pois que a PANAIR anunciava, e lá muitos estavam, para vê-los e aplaudi-los.
            Dona Darcy Vargas, esposa do grande Presidente Vargas, por aqui transitou com destino a Norte América, ocasião em que muito aplaudida foi, pelos camocinenses. Quando da demora do Hidro-avião, por quase uma hora, na cidade, o Grupo Escolar José de Barcelos, por sua Diretora, dona Odette Mota, mandou ao local da PANAIR, uma legião de bem cuidados alunos, fardamento limpo e engomado, sob comando de uma professora alta, corada e bem maquiada, com a finalidade de prestar merecida homenagem à Primeira Dama do País, dona Darcy Vargas. O aluno Benevinuto Cellini dos Santos irmão do Zé dos Santos da Estrada de Ferro, e tio de Antonio Avelar, foi o mensageiro escolhido para entregar um buquê de Perfumosas rosas naturais, como oferta da simpatia e reverência do povo de Camocim, à primeira dama do País. Dona Darcy o recebeu visivelmente comovida, ao pronunciar carinhosos agradecimento. O contingente de alunos entoou cânticos patrióticos, pelo seu coral, bem como, significativa canção, composta e musicada em sua homenagem.
            O Cliper da PANAIR amerissava no amplo estuário de águas tranqüilas, para além da praia dos coqueiros, numa planura líquida de dois quilômetros de largura, e comprimento a perder de vista. Pousado, o aparelho deslizava mansamente em marcha de navegação comum, apoiado pelo sistema de dois pequenos botes estabilizadores e flutuantes, colocados no extremo de cada lado da asa, que ficava na parte superior da navegação, em que eram alojados dois motores de cada lado, motores a hélice. Ao ancorarem no trapiche da Companhia, saíam por uma espécie de portaló, na parte superior do hidro-avião, os passageiros, em busca dos salões em terra, no complexo da estação, o chamado ponto de apoio. No extremo do trapiche, parte que faz ligação à terra firme, lá estava, em atitude deplorável, a molecada reunida e pedir aos passageiros e tripulantes em transito, moedas: “Nica, nica”, gritavam de braços estendidos, ao que os gringos atiravam-lhes moedinhas, filmando a casa, ou clicando a maquina fotográfica, quando zombeteiramente e rindo, exclamava: “Macaquito, macaquito!”.
            Voltemos agora, aos primeiros hydro-aviões da Nyrba, aqui agenciados pela firma comercial Albuquerque & cia., cujo gerente era o Sr. Ramos Fontenele, conceituado empresário de Camocim. Depois de algum tempo de passagem pela cidade, desses aviões, sem que embarcasse ou desembarcasse um só passageiro, finalmente, um estivador do porto, chamado João Luiz de França, presidente da sociedade representativa da classe, denominada DEUS E MAR, homem espadaúdo o de compleição física um pouco acima do normal ou média, tez mais para escura e de cuja boca afloravam dentes de ouro, como era chique da classe social menor, muito estimado pelos graúdos da paróquia, e benquisto de todos, aceitou uma proposta da turma de amigos, intermediados pelo senhor Fernando Coelho, para viajar por terra até a vizinha cidade de Parnaíba, limítrofe do Estado do Piauí (talvez em montaria de alquiler, visto não existirem rodovias) e de lá regressar pelo hidro-avião da Nyrba, com toda a despesa, inclusive hospedagem no melhor hotel, financiadas pelo grupo de amigos. Parnaíba dista de Camocim, cerca de 120 quilômetros. Dito e feito, o avião ancorou aqui poucos dias após na estação flutuante, em horas da metade do dia, sol quente, e logo mais, no cais fronteiriço da beira da praia, assomou de uma canoa que fazia o transporte do pequeno trecho, caiu nos braços do povo ululante, o nosso querido herói, o primeiro camocinense a viajar em avião comercial. Desceu bem elegante, em traje de casimira azul-marinho, camisa branca de colarinho e gravata azul, calçando sapato de verniz preto, de reluzente brunidura. Ao nosso herói, em primeira mão, foi dado o título nobilitante de CONSUL DE CAMOCIM NA PARNAIBA, pela solene proclamação de Fernando Coelho. O foguetório começou a pipocar (foguete que era feito de taboca e rabo de cipó, mais ou menos um metro o feito na Viçosa, os únicos que existiam e às vezes subia destrambocado), e a banda de música local, começou a tocar dobrados, começando pelo “saudades de minha terra” do Maestro N.N. e por ai foi, enquanto o CONSUL recebia sorridente e compenetrado, abraços da multidão Fernando Coelho, em nome de todos os recepcionistas, proferiu vibrante improviso, em que exaltou as qualidades do novo herói, que foi o primeiro camocinense devassar os ares, navegando em avião de carreira comercial. Do cais, a multidão, com o CONSUL e a comissão de recepção do jornal semanário de Camocim, A RAZAO, cujo redator e proprietário, o intelectual Sr. André Pessoa, o entrevistou solenemente, enquanto a furiosa não parava de tocar e o foguetório a pipocar, até que um foguete adoidado correu na horizontal, penetrou pela boca do contrabaixo, onde explodiu e quase mata de susto, o musico que ficou chamuscado e perdeu as pestanas.
            No próximo numero, semana seguinte, o jornal saiu com reportagem de pagina inteira, louvando a coragem e o pioneirismo do nosso CONSUL, primeiro daqui, a navegar pelos ares. Até hoje, João Luiz de França, pai de Bandú e avô de Ferrucio, é lembrado com reverente saudade, e, na rua em que morava, parece-me rua da fumaça, foi rebatizada com o nome de ARRAIAL LUIZ DE FRANÇA, em sua memória, homenagem justa e sem protocolos oficiais, na espontaneidade do povo.


Autor:
Joaquim Parente
Crônica: Que Saudade eu Tenho

Que saudade eu tenho!!!

Ainda dizemos, “Camocim terra do já teve”, isto nos lembra e nós dói por ainda estar bem vivos em nossa lembrança os momentos de turbulência que passamos tempos atrás. Foi quando perdemos o  que tínhamos de melhor, mais importante e valioso, que era o nosso PORTO e nossa ESTRADA DE FERRO. Lutávamos com patriotismo e determinação, onde no afã de nossa luta estavam unidos todos os camocinenses, “rico, pobre, branco e preto”. De braços dados cantávamos o nosso hino, dando o nosso grito de ordem, que ainda hoje escutamos. Tudo foi em vão e, lamentavelmente, perdíamos o Porto, a esperança de continuar nosso intercambio comercial com os outros Estados e Países. As nossas famílias e a sociedade ainda sentem a falta dos nossos clubes: Camocim, Comercial e Balneário. Neles, dançávamos nossos gostosos boleros, o sambinha miúdo e, em fevereiro, o carnaval que contaminava a cidade. e tome frevo!... Nesse clubes foi onde ficou registrado em nosso coração nossa primeira namorada. E agora o que fazer?... nada! Pelo menos podemos dizer: bons tempos! E o cinema (João Veras), que vem lá do tempo do nosso pintor, pessoa extrovertida e querida. Colocava as tabuletas nas principais esquinas da cidade, avisando o filme do dia. Mais tarde, tínhamos como administrador nosso também Helio Veras, época em que foram encerradas suas atividades. Por que tantas portas fechadas? Onde está meu ir: e amigo Edilson Coelho, - “onde estais, onde estais que não respondes?” e a nossa querida estrada de Ferro, o transporte do rico, do pobre e dos estudantes, está parada, sem vida, mas o POVO não!. Os camocinenses dos Mares Bravios, com seus corpos com cheiro de peixe, estão bem vivos. Eles atualmente estão organizados, mais determinados, melhor politizados e mais sábios. Camocim de 70.000 habitantes, de ruas asfaltadas, de ponte aérea, de calçadão à “beira-mar” de industria pesqueira e calçados. Com turismo fluente, com italianos pertinentes, de TV a cabo. Com celulares ajudando os taxistas. De intelectuais, pintores, poetas, mesmo tendo poucas peças com flores! O que diria o nosso irmão Pinto Martins sobre a sua Praça? Por baixo, não tenho coragem de dizer por cima cheia de “pombos pretos”. Mas como Deus também é filho de Camocim, nos permite ainda que sentimos o vento do mar , o sol a nos bronzear e, do alto das falecias das Barreiras, testemunhemos a Lua deitar-se sobre o mar, provocando aos poetas e pessoas de alma limpa debulharem suas poesias. Mas, mesmo assim, sinto saudades de ontem. Ia esquecendo-me! Em nosso novo Camocim, temos três jornais (circulando), seis estações  de Radio, uma dúzia de Médicos, meia de Dentistas, uma Faculdade (que é uma UVA), uma Igreja nova, e uma cidade cheia de gente.

Joaquim Parente.


Autor:
Avelar Santos
Crônica:
Velha Casa

VELHA CASA

Naquela rua tranqüila, no centro da cidade, perto do mar e do coração, na elegante - e amada - Engenheiro Privat, há uma velha casa, edificada de sal e sol, desbotada impiedosamente pelas intempéries e rabugices dos séculos, onde os ventos uivam em cada canto, espargindo bênçãos e afugentando os recalcitrantes fantasmas, fazendo, dela, uma amante perfeita: charmosa, bela e submissa. 
Lá, eu nasci.
Ela é ladeada por duas outras irmãs siamesas e fica de frente para o nascente, olhando sempre sonhadoramente para o Atlântico, beijando ternamente a fronte da Estação Ferroviária de Camocim, palco inesquecível de tantas chegadas e partidas, durante os indizíveis - e longínquos - dias de minha mocidade. 
Na tranqüilidade, segurança e singeleza de suas paredes, certamente passei os dias mais felizes da minha vida. 
É uma casa centenária, sem floreios arquitetônicos, de altura incomum, com um amplo corredor de acesso, de quartos aconchegantes e cozinha acolhedora, com um jardinzinho encantador, dona inquestionável de muitos segredos e mistérios. Altaneira, na placidez majestosa de sua meninice, presenciou silenciosamente o desabrochar da urbe, observando o gracioso desenvolvimento de toda sua feminilidade e encanto.
Naquela casa, eu vivi. Ali, sonhei tantos sonhos.
Ainda sou um menino, perdido na sua imensidão, a vaguear paciente e incessantemente pelos seus aposentos, embrenhando-me, cada vez mais, em sua doce solidão.
Antigamente a cegonha gostava muito do lugar e aportava, por lá, todos os anos, trazendo, muito solícita e compenetrada, invariavelmente fora de hora, na mansidão e quietude da noite alta, envolta na densa e negra escuridão, sua carga preciosa, tão ansiosamente aguardada por todos, de futuros irmãozinhos meus. 
Se a felicidade existe, foi lá inquestionavelmente que a encontrei. Assim, tive o privilégio sublime de desfrutar da magia de minha infância inteira na sua benfazeja e calorosa companhia, esforçando-me para aprender os seus sábios ensinamentos. Havia um imenso quintal, repleto de fruteiras, sonhos e passarinhos, um verdadeiro paraíso, aonde costumava passar boa parte das tardes cheias de Sol sob a sombra das copas amigas dos tamarineiros e das goiabeiras, dando corda ao pensamento, deixando-o voar livre – e irrequieto - pelo infinito. Ah! E o que dizer do arrebatar febril das asas ligeiras dos primeiros e inesquecíveis amores que incendiaram a minha imaginação e abrasaram definitivamente o meu coração? Quantas vezes, meu Deus, ao ver-me chorando, pelos cantos, solitário, ela não me tomava carinhosamente nos braços e, cantando velhas e perdidas canções de ninar, acalmava-me a alma, calando-me o pranto contido, consolando-me minhas lancinantes dores?
A um quarteirão dela, a distância de um tiro de estilingue, um Cinema nos chamava, aos gritos, toda noite, para adentrarmos alegremente sua franciscana sala de exibição e, como abençoados espectadores, retroagirmos ao Velho Oeste americano, pontilhado de perigos e emoções. Durante uma cascata de anos, aquela foi uma de minhas maiores alegrias!
A quietude das madrugadas - e das ruas – fazia a velha casa recolher-se mais cedo, dormindo o sono dos justos, com janelas e portas abertas, sem nenhuma preocupação. Acordava invariavelmente, pelas quatro da matina, quando o ronronar do trem anunciava sua jornada iminente. Naquele lusco-fusco ouvia meu Pai despedindo-se de minha querida Mãe, ao sair para o trabalho.
O coração, embora cansado e quase mudo, fala mansamente de tudo que vivi naquele tempo maravilhoso.
Obrigado, velha amiga, pelos imorredouros anos em que gentilmente me abrigastes.
Hoje, naquela casa, os fantasmas rondam – e espreitam - em cada canto, e um silêncio sufocante  jaz no seu     âmago. Conosco, companheira, que pena, o tempo foi muito cruel e rude: Passaram-se rapidamente os anos – e eis que de repente, ingloriamente percebemos, partiu, de nós, eternamente, a alegre e sublimeJuventude.
 AVELAR SANTOS





segunda-feira, 14 de maio de 2012

Aniversário O Literário.

Como estamos no mês de aniversário do nosso Jornal O Literário, estamos publicando nesta semana matérias inéditas dos escritores, Carlos Augusto e Artur Queirós.

Autor:
Carlos Augusto
Artigo:
Contando Histórias de Camocim para Ruth


 
 
Aproveito a caminhada vespertina até a casa de minha mãe para contar alguma coisa da história da cidade para a caçula Ana Ruth. Na ida, exatamente neste cruzamento da Rua 24 de Maio com General Tibúrcio, falo para ela que a casa entre a antiga "Usina" e o Ceja João Ramosfoi uma central telefônica, daquele tempo em que precisávamos da telefonista para completar a ligação com outra pessoa. Diante do muro da RFFSA ela me indaga sobre o terreno e eu explico que ali era o antigo pátio de manobras dos trens. Na volta, já à noitinha, no trecho que se denominava Rua do Egito, digo para ela que antes do calçamento passar por ali as calçadas eram muito altas e de tamanho variados, como ela podia conferir pela "barra" nas fachadas das casas. Diante da "Usina",  explico-lhe o significado da sigla CFLC - Companhia de Força de Luz de Camocim, que vendia energia aos moradores produzidas por motores a óleo diesel. Falo-lhe da mancha de óleo que vazava para a calçada e dos tombos dos incautos, além das minhas travessuras com amigos em jogar pedras no prédio para testar a nossa pontaria, por uma pequena abertura logo abaixo daquela sigla. Sigo dizendo que o muro da então Escola de 1º Grau João da Silva Ramos era bem menor que hoje, com um gradeado por onde comprávamos nossas merendas na hora do "recreio". Ela, no entanto não pergunta a razão do agora muro alto. Prosseguimos na caminhada e lhe falo agora já na Praça do Hospital que ali fora antigamente um parquinho infantil. Dou-lhe detalhes do antigo muro, dos brinquedos... Ela nem desconfia das razões do abandono da atual Praça "Zequinha" Ximenes. Atravessamos a Praça da Matriz e lhe digo como a mesma era até meados dos anos 1980. Esperamos o sinal abrir na confluência com a Rua José de Alencar e tento lhe dizer como era a Casa do Sr. Edson Tavares, transformada em galpão onde hoje abriga o Armazém Paraíba. A esta altura, Ana Ruth desvia a atenção da "aula" para as vitrenes da Casa Nova, desisto então de lhe falar sobre a Empresa Rápido Mossoró, do Sonoro Pinto Martins. Esperamos outro sinal abrir, mas não divido com ela minha desolação ao ver que uma das últimas fachadas com o registro "1917" desapareceu para sempre da história da Praça Pinto Martins, numa recente reforma de uma padaria, não por culpa dos padeiros, é claro. A monotonia da nossa caminhada é quebrada, no entanto, com a efusividade da Fernanda que proclama em alto e bom som as felicitações de Natal e Ano Novo para mim e a Margareth, enquanto sai no seu rebolado caracterísitico em sua caminhada noturna... Prosseguimos. Passo mudo pelas ruínas da antiga Agência do SESI e só volto a falar quando Ana Ruth pergunta o que era a "Sede da São Vicente". Tento dar uma explicação mais fácil, enquanto vejo a porta aberta. Reparo para dentro e me deparo com um jovem, por coincidência, neto daquele que deu nome à praça que fica ao lado do hospital dando uma aula de matemática para um grupo de pessoas. É o Neto, filho do Assis e da Gina Trévia. Na primeira fila, o Meio-Quilo atento. Não perco a deixa e proclamo: Meio-Quilo estudando? - A humanidade está salva! Todo mundo ri e eu me ofereço para colaborar com uma aulinha de história qualquer dia desses. Mal sabiam eles que eu acabava de ministrar uma.

Carlos Augusto P. dos Santos.


Autor:
Artur Queirós
Artigo:
O Circo em Camocim


O CIRCO EM CAMOCIM



            Depois que os filhos da Loba fundaram Roma, em que floresceram as Lupercálias, no esplendor emergente dos Césares que dominavam o mundo, surgiu o advento de MERO (Claudius Caeser Britânico) o quinto Imperador, corrupto, cruel e bárbaro. Era nessa conjuntura que o satírico poeta Juvenal, conclamava a plebe rude e ignara, a exigir do Senado Romano, PAO E CKRCO (Panem ET CIRCENSIS). Era assim a critica do poeta, á decadência de Roma. Daí a influencia de um dos mais belos espetáculos da terra, o CIRCO, que ainda resiste aos progressos da era moderna. Por isso, se referem os apresentadores do espetáculo, no proscênio: “Respeitável público: vamos aqui transportado por serviçais, para o local de armar. Na equipe de artistas, homens e mulheres corpolentos, altos e rosados, tudo bem trajado, que o povaréu dizia vir das estranjas. Rodeavam-nos, para ouvirem, basbacados, falarem entre si. Coisa de estranja, dizia a turba-multa.
Causou impacto, logo na armação, muito material, mastros metálicos, montados em estágios, lona nova e imensa, picadeiro amplo com taboado, ao contrário de chão batido, dos anteriores, cadeiras numeradas na primeira e arquibancada (puleiro) decente, como, a um lado reservado, a montagem de imensa e gradeada esfera metálica. Era o assombroso GLOBO DA MORTE. Coisa de causar espanto e pavor. Havia ata os que consideravam o monstrengo, feitiçaria, coisa do capeta. Retroangindo aos velhos tempos aos velhos tempos do Tribunal da Fé, em que o grande GALILEU, quase que serve de lenha de fogueira, só porque dizia que a terra era solta no espaço, os tabaréus daqui bem pensaram em queimar o circo todo, ao se sentirem apavorados. E não faltou aqui na província, depois que o circo foi-se, gente curiosa a querer imitar o TEMPERANI, cavando em terreno barrento, que é firme, lá no quintal do mestre Pedro Rufino, um meio globo da morte,  não de ferro mas de barro, para imitação dos artistas, em velhas bicicletas. Lá estavam o Dario Cordeiro, e seu irmão Nilo, o Toinho do Cirilo Caldas e outros mais, sob observação do cronista, todos barreados, no labor intense, até que as pás e picaretas foram encostadas. Estava pronto o “globo”, de vida efêmera, pois que, logo que iniciados os primeiros treinos, com inevitáveis trambolhões sofridos, pois que uma grande chuva descaracterizou o tal “globo”, enchendo-lhe de ábua até às bordas, daí por diante, paraíso de sapos. Camocim tem também, os seus pioneirismos. Ora, até com à passagem do aviador Pinto Martins, no ano centenário da Independência – 1922 – conduzindo o hydro-avião Sampaio Correa, coisa nunca vista at;e então, apareceu um decente entusiamado, querendo também voar. Procurou mestre César, bom ferreiro da cidade e fez a empreitada. Mestre César, de olhos na bem sortida mercadoria do futuro az do espço, sempre mascando seu funo melado, verdadeira fábrica de iodo, ia tangendo o serviço, amoldando o pássaro aéreo, e sempre beliscando o dinheiro do candidato, até chegar-lhe à falência. De aviçao apenas coube-lhe a honra de semulacao de um ataúde coberto de pano (o corpo do avião), para a fotografia do álbum do herói. O motor, ah! O motor! Mestre César ainda não tyinha para ele, mais que alguns tirante de ferromalahdo.
O circo tinha banda de música própria, coisa nunca vista, coisa que causava animação esfuziante. Moças robustas e bem exercitadas apresentavam números variadas e representavam números de canções em colantes e sumária roupagem, eivada de  paetesd brilhantes que brixoleavam à luz de refletores, a meio de provocantes rebolados, precursores das danças de bunda de hoje, em alta cotação, coisa que foi muito criticada por vilalinas encalhadas, como tentação do demônio. Após os números exibidos, elas circulavam cheirosas e provocantes, a meio da platéia, colocando aos ombros dos expectadores, uma longa larga fita carmesim, ao solicitarem uma cooperações, rendia-lhes um baijo nas bochechas. Quanta besteira!
Outra novidade, era o serviço de som. O circo trazia a primeira “Amplificadora que aportou por aqui. Eram, praticamente, as precusoras do RADIO, coisa que também chegou a ser cotada como arte diabólica, a voz das pessoas saírem de um negócio afunilado. E onde estavam as criaturas? Por ali saiam as propagandas do espetáculo, e vinha para o “respeitável”, a bonita voz do novo ídolo do 78 RPM, Orlando Garcia da Silva, o cantor das multidões, como foi artisticamente alcunhado, na melodia da musica de Custódio Mesquita e Mário Lago, NADA ALÉM; Carlos Trinava os acordes da valda ÚLTIMO BEIJO, de Jorge Faraj e Roberto Martins.
Mais novidade com que muito faturou o circo FEQUETI, foi tal cachorro quente, até então, desconhecido na terra, aquela merenda feita na hora, na  cara do freguês, e que outros se benziam estremunhados, excomungado aqueles que comiam carne de cachorro. Abençoada ingenuidade!
Agora, o grande segundo circo que transitou em Camocim. Trata-se do NERINO, no segundo semestre do ano de 1945, grande circo, educados e perfeitos no exercício da arte circense; espetáculos variados, bons artistas, números exibidos com eximia perfeição, enfim, coisa de primeiro mundo, como se diz. Tinha como dirigentes seus fundadores, no ano de 1913, em Curitiba, os irmãos GAETAN e ARMANDINE RIBOLÁ, seguidos do PICOLINO, o palhaço mór, ROGER AVANZI, hoje aposentado, morando em São Paulo. OGER, jovem bonitão e bem apessoado, astro reluzente da Companhia, causo reboliço e almoroço entre as moçoilas irrequietas da cidade, fulero da disputa; fã club snetimental, surgido de repetente em torno de si, sobre as quais ROGER exercia verdadeiro fascínio. Algumas até esqueciam de alianças firmadas. Era no tempo do contagiante ufanismo patriótico de “O PETROLEO É NOSSO”, tudo pelo monopólio Estatal, quando Getúlio acenava com os primeiros passos para implantar no Recôncavo Baiano, aprimeira refinaria a processar o viscoso óleo fétido, em homenagem a Monteiro Lobato, o incansável idealista do petróleo brasileiro.
Nota triste para o NERINO, aqui, foi o falecimento, morte súbita, do artista MINERVINO, exímio trapezista. Ele ensaiava, certa manhã, quando caiu do trapézio e fraturou a coluna vertebral, o que lhe causou a morte, com provocação de priapismo, morte gloriosa, portanto. Minervino fazia parte da família circense, assim como Roger. Minervino aqui foi sepultado, e, anos depois, em exumação, reagaram-lhe os ossos.
Verônica Tomaoki, artista circense e escritora paulista, vem reunindo em pesquisas intensas, material para o feitio de um livro, sobre as andanças do circo Nerino há anos desativado, tomado por base, o acervo de inúmeras fotografias documentário reunido no decurso das andanças, reunidos pelo palhaço PICOLINO, ROGER AVANZI. Pedindo-me sempre o caso do priapismo que desconhecia, mas que foi-lhe confirmado por ROGER, como menciona em carta posterior.
O forte NERINO, era, porém, a arte dramática, tudo bem ensaiado e bem interpretado em encantadores cenários, - o que muito agradava ao “respeitável público”, tais como; entre outras, as peças: Assassino por amor; As Órfñs de Pariz e Deus lhe pague, esta última, parece-me de Joracy Camargo, e, no estilo religioso, Castigo do Céu e Os milagres de Santo Antonio, em cuja representação, até os peixinhos saltavam, quando o Santo dirigia-lhes a palavra. Aplausos delirantes, apostólicos..
Certa vez GAETAN e ARMANDINE dançaram no tablado do Picadeiro, um tango executado pela orquestra do circo, coisa que encantou ao “respeitável público”, que, em abaixo assinado, pediu-lhes reprise, o que foi atendido em espetáculo posterior. GAETAM, suspenso por uma corda na altura de uns dez metros, içado por um endereço que o prendia pela boca, solava em bandolim, entre outros números, a valsa Santa Terezinha. Aplausos.
Depois de longa temporada, prorrogada várias vezes, a pedidos, o grande circo foi desmontado e alojado novamente, em vagões da Estrada de Ferro (Maria Fumaça), para retorno, eis que o transporte rodoviário por aqui, era incipiente, nem rodovias existiam.
E assim foi a saudosa de NERINO, por Camocim, cuja recordação nunca saiu da memória do camocinense daquela época, muito menos das moçoilas sassaricantes e suspirosas de antanho, hoje encarquilhadas e rabujentas matronas, o que faz lembra o grande romancista patrício, José de Alencar, no epílogo do celebre romance-poema: “A jandaia cantava ainda, no olho do coqueiro; mas não repetia já o mavioso nome de Iracema. TUDO PASSA SOBRE A TERRA.

Artur Queirós.

sábado, 12 de maio de 2012

Mãe

- às Mães que apesar das canseiras, dores e trabalhos, sorriem e riem, felizes, com os filhos amados ao peito, ao colo ou em seu redor; e às que choram, doridas e inconsoláveis, a sua perda física, ou os vêem “perder-se” nos perigos inúmeros da sociedade violenta e desumana em que vivemos; - às Mães ainda meninas, e às menos jovens, que contra ventos e marés, ultrapassando dificuldades de toda a ordem, têm a valentia de assumir uma gravidez - talvez inoportuna e indesejada – por saberem que a Vida é sempre um Bem Maior e um Dom que não se discute e, muito menos, quando se trata de um filho seu, pequeno ser frágil e indefeso que lhe foi confiado; - às Mães que souberam sacrificar uma talvez brilhante carreira profissional, para darem prioridade à maternidade e à educação dos seus filhos e às que, quantas vezes precisamente por amor aos filhos, souberam ser firmes e educadoras, dizendo um “não” oportuno e salvador a muitos dos caprichos dos seus filhos adolescentes; - às Mães precocemente envelhecidas, gastas e doentes, tantas vezes esquecidas de si mesmas e que hoje se sentem mais tristes e magoadas, talvez por não terem um filho que se lembre delas, de as abraçar e beijar...; - às Mães solitárias, paradas no tempo, não visitadas, não desejadas, e hoje abandonadas num qualquer quarto, num qualquer lar, na cidade ou no campo, e que talvez não tenham hoje, nem uma pessoa amiga que lhes leia ao menos uma carta dum filho...; - também às Mães que não tendo dado à luz fisicamente, são Mães pelo coração e pelo espírito, pela generosidade e abnegação, para tantos que por mil razões não tiveram outra Mãe...e finalmente, também às Mães queridíssimas que já partiram deste mundo e que por certo repousam já num céu merecido e conquistado a pulso e sacrifício... A todas as Mães, a todas sem excepção, um Abraço e um Beijo cheios de simpatia e de ternura! E Parabéns, mesmo que ninguém mais vos felicite! E Obrigado, mesmo que ninguém mais vos agradeça! Via Pastelli.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

como foi proposto pelo blog www.aradisilva.blogspot.com que semanalmente seria publicadas matérias do nosso saudoso Jornal O Literário, nesta semana estamos publicando matérias inéditas dos escritores Avelar Santos e Inácio Santos.

Autor:
Inácio Santos
Crônica:
A Pedra



A Pedra.

Ali estava, incrustada no espaço a céu aberto, separando fronteiriçamente os mercados: Mercado Central (novo) e Mercadinho (velho).
                “A Pedra” era assim por todos conhecida. Não se sabe ao certo a autoria da alcunha. Talvez por ter o chão coberto de paralelepípedo, fosse o motivo do nome.
                Era o paraíso dos feirantes, vendedores, mascates, galegos, artistas de rua, etc.
                Havia espaço para tudo e para todos. Perto do portão do mercado, era o lugar dos padeiros. Carrinhos, cestas, balaios ofereciam pães massa grossa, sovados, de coco, com tody, bolos, broas, bolachas-fogosas e todos os tipos de variedades e guloseimas eram apregoadas. Um pouco mais para o lado, ficavam os tapioqueiros; umas caixas de madeira serviam de tabuleiro. Tapiocas com coco, beijus, etc. Dois metros à direita, amontoavam-se os vendedores de camarão com seus urus abarrotados de pitus, sossego, sete-barbas, vermelho, do alto, etc. (variedades da espécie). Voltando em sentido contrário, estava a mini-feira de animais (na época não existia IBAMA); ali podiam encontrar-se gaiolas com periquitos, papagaios, tatus, pebas, cágados, guaxinins, entre outros espécimes da fauna local. Poucos metros à frente, o espaço dos vendedores de caranguejos. Cordas e mais cordas do delicioso crustáceo amontoavam-se no chão, enchendo a vista dos fregueses. Mais ou menos no centro, vários bancos formando um quadrado em volta de uma mesa, chamava atenção. Era o delicioso “chá de burro do Manduca” (tipo de mingau de arroz, milho e coco) servido em tigelas, acompanhado do famoso cuscuz de milho ou arroz. Ainda mais em frente, as tradicionais banquinhas serviam: café, leite, bolo, pão, tapioca. Fogareiros a carvão crepitavam com paneladas, caldo de carne, sarapatel, sarrabulho, cozidão, sem faltar a fortíssima sopa de mocotó de boi – que diziam levantava até defunto! Já entrando no mercadinho, numa espécie de balcão azulejado ficavam os leiteiros. Depósitos de alumínio cheios de leite. Diversas vacarias. Vários donos. Muitas preferências. Leite puro tirado do peito da vaca ainda de madrugada. O teste do fiscal da prefeitura, feito de surpresa, verificava a pureza do produto. Se tivesse água, era derramado ali mesmo na frente do freguês.
                O espaço central da Pedra era disputado pelos vendedores de estivas e cereais, frutas e legumes. Bugigangas e quinquilharias de toda espécie e natureza eram expostos em mesas, barracas desmontáveis, tabuleiros, às vezes no chão, dependendo da mercadoria.
                Havia ainda sempre espaço para os ambulantes ocasionais que andavam de feira em feira.
                O homem da cobra reservava dois ou três metros quadrado e armava seu “circo”. Um microfone ligado à bateria, adaptado ao pescoço; uma caixa ou mala com uma cobra dentro. Ali fazia o seu teatro. Depois do ajuntamento de curiosos, aproveitava para vender seus produtos: tônicos milagrosos, elixires de longa vida, pomadas maravilhosas, banha da ema, da capivara, do peixe-boi, etc.
                Outro trazia dentro de um aquário um “poraquê” (espécie de enguia do Rio Amazonas) também conhecido por peixe-elétrico. Encostava no peixe dois terminais ligado a uma lâmpada e a mesma acendia. Desafiava a platéia boquiaberta e aparvalhada a pegar no bicho. Os mais incautos e curiosos, ao tentarem, levavam descargas elétricas. Motivo para vaias e gargalhadas da canalha da feira. Os mágicos vendiam baralhos marcados e outros apetrechos e ensinavam os truques a quem comprava. Havia as cartomantes, vendo a sorte dos fregueses nas cartas; as ciganas lendo na palma da mão, como num livro aberto o destino, bastavam alguns cobres. As mesinhas de caipira, pretinha, jogos de azar para os que queriam tentar a sorte e engordar a féria do banqueiro; moleques vendiam bombons, cigarros. Havia muitos bêbados caídos na sarjeta.
                A Pedra era uma maravilhosa “babel”: iniciava-se ainda de madrugada e atingia seu auge às onze horas da manhã.
                Geralmente, nessa hora, fervilhava tal qual um caldeirão. Mistura de vozes, gritos, vaias, sons dos mais diversos, desde o fonográfico até os cantadores de viola. Um cego cantava sua eterna cantilena ao som de um surrado berimbau. O vendedor de romances (literatura de cordel) cantavarechos de uma história ao seu seleto público, parando quando chegava a melhor parte para obrigar o ávido ouvinte a comprar o exemplar – destaque para: “A chegada de Lampião ao Inferno”, “Camões e Bocage”, “As aventuras de Pedro Malazartes”, “Sansão e Dalila”, “As proezas de João Grilo”, etc.
                Um escorregão, um desentendimento, uma briga, tudo era motivo para gritos e vaias da molecada, que atirava rebolos uns nos outros, não raro atingindo um transeunte. Motivo para mais confusão. Às vezes a polícia precisava intervir, alguém era preso e tudo voltava ao normal.
                Quando o relógio beirava o meio-dia, era a hora da xepa. Também conhecida como a “hora do pobre”. Produtos eram anunciados pela metade do preço, às vezes, bem menos. Até que todos  iam se retirando. Apenas a molecada empanturrada ainda teimava em ficar brincando, atirando tomates, restos de legumes uns nos outros e os bêbados que ao passar a carraspana, também iriam para casa, desocupando totalmente “A Pedra” para, na próxima madrugada, tudo começar outra vez.

                                                                                                                         Inácio Santos
                                                                                                  In Literário – Junho 2000.


Autor:
Avelar Santos
Crônica:
Balaio de Gato

BALAIO DE GATO
     
                  O  veículo era um velho - e feio -  caminhão Chevrolet que fora rusticamente adaptado ao "conforto" de um pretenso ônibus. Mas, a começar pela própria origem, digamos, um tanto bizarra, este certamente não parecia um busão comum. E, na verdade, não o era mesmo.
                      Todos os dias, à tardinha, antes de o trem  chegar, ele saía do seu habitual ponto nas proximidades da humilde Pensão de D. Petronília, plantada junto ao Avenida Bar, na aristocrata e amada Engenheiro Privat, e deslocava-se - feito pata no cio - até à majestosa e elegante Estação Ferroviária local, onde ficava pacientemente aguardando àqueles intrépidos viajantes que se aventurariam a embarcar, nele, até Parnaíba, no vizinho Estado do Piauí.
                      Naquela época, meados da década de 60, a ligação Camocim-Chaval- Parnaíba era uma estrada - será que era mesmo? - pontilhada de crateras lunares que ficava cheia de pequenas e traiçoeiras lagoas, no período das chuvas, atormentando sinistra e diabolicamente a todos que teimosamente nela transitavam. A viagem era, em suma, uma aventura radical visto que invariavelmente os veículos não agüentavam tanto desmazelo - leia-se omissão governamental - e quebravam, os pregos mais diversos, ao longo do caminho, deixando os motoristas - e os passageiros - à beira de um ataque de nervos, proferindo cabeludos palavrões que atingiam em cheio as vaidosas e honradas genitoras das autoridades de antanho. (Ainda bem que, naquele tempo, não havia ainda o tal do stress que tanto estrago causa à humanidade atualmente).
                   Depois de enfrentarem uma cansativa e sofrida viagem de trem de Fortaleza até Camocim, as pessoas evidentemente estavam exaustas. Mas o que fazer se alguns tinham de ir até Parnaíba? Pegar o Balaio de Gato, ora. Era este o sonoro e pomposo nome do dito coletivo que regularmente trafegava entre Camocim e Parnaíba, levando toda espécie de bichos que coubessem no seu interior, acompanhados naturalmente de seus respectivos - e zelosos - donos.
                  Lembro-me de que ele era de cor verde-musgo - completo e relaxadamente desbotado pelas intempéries do tempo e pelo desleixo notório do dono - com bancos de assento duro, a maioria primorosamente rasgada, constituindo em verdadeira obra de arte impressionista ambulante. Banheiro? Nem pensar! Era coisa de luxo, de burguês; enfim, uma temível assombração. Algo, entretanto, que me chamava mais à atenção era o seu bagageiro, rodeado por pequenas grades para proteção da bagagem, pois se equilibrava perigosa e acrobaticamente na parte de cima do carro.
                  Quando se aproximava a hora da partida, um ajudante do motorista ficava a postos. Assim que o pobre do passageiro adentrava no Balaio, tinha, antes, que arremessar a sua bagagem para o dito cujo de plantão que - educadamente e sem nenhuma cerimônia - deixava, propositadamente ou não, grande parte delas espatifar-se espetacularmente no chão e, nas vezes em que as recolhia, jogava-as em qualquer canto, de forma negligente. Era um serviço digno de nobres ingleses: ágil, eficiente e de elevada qualidade técnica.  
                   Mas nem tudo era um pesadelo! Havia, também, o lado bom da questão. O Balaio de Gato permitia uma maior aproximação das pessoas - visto que ensardinhavam-se lá dentro - e, com isto, a viagem não era de todo ruim, exceto pelo pára - pára interminável, pelo cheiro nauseabundo de suor e de vômito - que ocorria às centenas - de crianças e também de adultos, dos cigarros de palha tenebrosamente acesos, dos cachimbos fumarentos ou quiçá dos charutos ameaçadores. Fora isto, somente o descompasso de uma tosse ali, um espirro aqui (a poeira era infernal), desobstrução carinhosa e educada das narinas, gritos pavorosos de cães, gatos, galinhas e - pasmem - até de bodes, que pensavam - animalescamente - estarem no porão do próprio Inferno, entre outras coisas de somenos.
                  ... Vivi o entardecer do ciclo- ou seria circo - do Balaio de Gato, cujo início remonta ao alvor dos inebriantes anos 40. Recordo, com extrema nostalgia, aqueles idos anos, onde as dificuldades - de qualquer espécie - eram encaradas por todos com determinação e serenidade próprias de Mahatma Ghandi.
                    O trem parou - na verdade irresponsavelmente pararam-no. Não me perguntem por que. (Perco o meu fleumático bom-humor e fico apoplético quando me lembro disso). A Estação, imbecilmente, desativada. (Só em pensar nisso, dá-me um estranho comichão).
                   ...É! Os tempos haviam mudado! E para o meu surrado camarada infelizmente não tinha mais espaço. Ele, de forma repentina e impiedosa, coitado, como tantas outras coisas, pitorescas ou não, caíra no ostracismo. Fora consumido vorazmente pelo fogo abrasador de um dragão implacável chamado Progresso.
                     Entretanto, resistindo bravamente à sua derrocada final, ele, ao sair daqui, ainda encontrou forças e ânimo para fazer o trajeto - num percurso total de quase 400 Km - entre Parnaíba e o Entroncamento do Estado do Maranhão, situado a 120 Km de São Luís - a bela e fascinante cidade francesa do Brasil - trabalhando firme, até cerca de dois anos atrás, quase emplacando, com todos os méritos, o terceiro milênio.
                     Hoje, o Balaio de Gato encontra-se totalmente desmantelado - virou ferro-velho - numa sucata localizada à direita de quem vai de Parnaíba para Teresina. Logo ele que fizera a ponte entre os sonhos de tantos e os anseios e esperanças de outros quantos, que caminhava léguas sem fim - bem ou mal - para chegar ao seu destino, terminar, assim, de forma tão inglória a sua vida...
                 Foi uma tremenda injustiça!
                 Aqui fica registrado,  modesta,  porém firmemente, o meu incansável e imorredouro PROTESTO!

AVELAR SANTOS